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Jornalistas versus fontes?

Posted by Cássia Alves em 21 de maio de 2009

Esta semana, perguntei no twitter a opinião do pessoal sobre a velha questão: o entrevistado pedindo ao jornalista para que envie a matéria após a redação do jornalista. Dentre as diversas respostas que tive, considerei dois pontos de vista para discutir aqui:

O Charles Nisz, do Fragmentos da Realidade Cotidiana, e a Milena Dib trouxeram respostas que considerei muito pertinentes: a deontologia/ética/responsabilidade do jornalista com o público o obriga a escrever uma matéria do jeito que deseja e com todo o material que conseguiu apurar. E se o entrevistado requisitar a matéria para revisão, isso pode ser considerado censura.

Explicando de uma maneira beeeeeeeem resumida: o jornalista, na teoria, é o meio de chegada das informações para o povo. Ele tem a função de ir lá, ver o que está acontecendo, e contar isso para o público da maneira mais transparente possível. Aí no meio estão implícitas diversas nuances, como a linha editorial do veículo, a ética e/ou moral de cada um, as assessorias de imprensa, os interesses do jornalista e do entrevistado, etc. Por isso mesmo, dizem que é tão difícil fazer jornalismo descompromissado hoje em dia.

A Mahira Oliveira questionou por que não passar a matéria para o entrevistado ler antes da publicação. Imaginemos a seguinte situação (hipotética, mas possível): um jornalista trabalha em Brasília e cobre o Senado. Ele descobre o motivo real do Collor ter pedido para fazer parte da bancada governista na CPI da Petrobrás, conseguindo uma entrevista com algum assessor da oposição que topou falar. Ele chega a entrevistar o Collor também. E daí ele passa a matéria para o dito Sendor ler antes de publicar??

É uma situação extremista, claro. Mas se a matéria tem a função de revelar alguma coisa bombástica, ninguém além do editor deve ler esse texto. Caso a matéria não tem nada de investigativa, como uma entrevista com um médico, o dever do jornalista durante a entrevista é esclarecer todas as dúvidas que possam surgir para que o médico não precise checar em uma revisão o que o jornalista tiver escrito.

O jornalista é o cara que tem que pegar um assunto e passá-lo para um maior número de pessoas de maneira que todo mundo entenda, certo? O tal “especialista de generalidades”, algo que todo mundo ouve durante a faculdade. Logo, ele tem que ser gabaritado para tal. Sendo assim, o entrevistado não precisa ler a matéria, certo?

É, aí chegamos na realidade. Em redações com cada vez menos jornalistas, e que chegam com menos experiências e mais inseguranças, os textos têm ficado muito superficiais. Além disso, no processo de edição, se é um jornalista free-lancer quem produziu o texto, na hora do fechamento, o texto pode virar uma terceira coisa além do desejo do entrevistado e do jornalista.

Qual a solução pra isso? Jornalistas mais preparados e que estejam presentes durante o fechamento para que a matéria saia de acordo com o previsto? Assessores de imprensa que expliquem para seus clientes que o jornalista está sim plenamente gabaritado a fazer a matéria e não pode requisitar a matéria para revisão antes da publicação? O jornalista entrar em contato com a fonte uma última vez antes do fechamento para checar todas as informações?

Eu acredito que um pouco de tudo isso. Parece irreral, mas deveria ser assim. Pelo bem das práticas jornalísticas e da existência do tal. Não é porque vivemos agora em um mundo dito veloz, em que o público busque mais e tão somente assuntos que o interesse que devemos produzir coisas superficiais e com apuração fraca. É exatamente por isso que o jornalismo tem de ser feito ainda melhor. Mas claro, é minha opinião. Qual a sua?

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